Fotógrafo demitido!

COMO TUDO COMEÇOU

Na quinta-feira, o Cláudio Silva, do DC, estava no centro, fotografando a manifestaão do pessoal do passe-livre e seus desdobramentos, como o confronto com a polícia. Quando prenderam um dos líderes da manifestaão, um sargento disse que o Claudinho não podia fotografar.

Ora, nenhum fotógrafo profissional que se preze e que honre as calças que veste, vai aceitar que alguém lhe diga o que pode e o que não pode fotografar em um lugar público.

Decerto o sargento achou que o fotógrafo trabalhava no DIARINHO, porque o chamou de “negro viado”, numa evidente provocaão. E em seguida deu voz de prisão e botou o Sarará num camburão. A viadagem aqui da casa ficou de cabelo em pé com a expressão preconceituosa do policial.

É preciso, agora, indagar do governador LHS e do secretário Benedet, qual dos dois deu a ordem para impedir que a aão policial seja fotografada. Porque se o sargento agiu por sua livre e espontânea vontade, precisa ser imediatamente punido.

Num Estado de Direito não pode o policial (e sequer o oficial ou mesmo os agentes políticos) regulamentar a seu gosto a Constituião.

Os policiais usaram a força para impedir o Sarará de trabalhar e, como complemento da aão ilegal, espancaram o rapaz com uma crueldade que parece habitual. Durante todo o trajeto até a Central de Polícia o “corajoso” sargento que o impediu de fotografar aproveitou que o Sarará estava algemado e esmurrou seu rosto, deixando marcas visíveis.

FATOS IGNORADOS
S depois que foram cometidas várias arbitrariedades (a começar pela censura policial ao registro de um evento de interesse público) e que o fotógrafo tinha sido espancado, é que se começou a pensar numa forma de transformar a vítima em réu.

Sarará conta que foi obrigado, na marra, a soprar no bafômetro. Mais uma violência descabida. Mas o jornal Diário Catarinense, ao redigir a notícia, fez uma estranha seleão dos fatos que deveria e que não deveria levar ao conhecimento de seus leitores. E escolheu publicar, certamente após acaloradas discussões internas, apenas que seu empregado, segundo a polícia, estava bêbado.

Não fala sobre o espancamento, não diz nada sobre a proibião de fotografar, não se refere ao outro fotógrafo da casa que teve equipamento danificado pela polícia. A omissão desses fatos dá ao “teste” a que o Sarará foi submetido em condiões desumanas e humilhantes, uma dimensão falsa.

O resultado do bafômetro, por falar nisso, não foi mostrado na hora ao Cláudio. Ele sequer sabe qual o teor que acusou. Não deve ser muito alto, porque ele tomou uma cerveja no começo da tarde, no Mercado. Mas esse “teste” está sendo mais valorizado que as fotos que mostram seu rosto machucado.

E a notícia, do jeito que foi publicada no jornal, deixa mal o Nelson Sirotsky (diretor-presidente da RBS), que, como presidente da Associaão Nacional de Jornais (ANJ), tem se posicionado contra aões arbitrárias que visam impedir ou dificultar o trabalho da imprensa. E foi isso que a polícia fez: impediu, com violência, o DC de cumprir sua missão, ao deter e espancar um de seus funcionários.

ESPANCAMENTO COVARDE
O Cláudio não foi preso porque estava bêbado. Foi preso porque ousou fotografar a aão da polícia.

E mesmo que fosse crime - e não é fotografar policiais, a pena para isso não seria o espancamento. E o Sarará foi covardemente espancado.

Depois a polícia começou a afirmar que ele tinha tomado umas cervejas. Mesmo que fosse crime - e não é - tomar umas cervejas, a pena para isso não seria o espancamento. E o Sarará foi covardemente espancado.

DECISÃO PRECIPITADA
Por mais que a gente tente compreender a posião da RBS e da direão do Diário Catarinense no caso do seu fotógrafo Cláudio Silva (demitido menos de 24 horas depois do incidente em que foi impedido de trabalhar, preso e torturado), sempre esbarra em algum aspecto difícil de aceitar.

Aparentemente a empresa, ou algum de seus dirigentes, ficou tão assustada com o resultado do teste do bafômetro, que não pensou em mais nada que não fosse livrar-se do “mau elemento”. Sequer pensou que a aão policial visava, em primeiro lugar, o próprio jornal.

A gestão do pessoal e das crises que envolvem empregados são disciplinas básicas na administraão de qualquer empresa. Na maioria das grandes empresas existem profissionais que se prepararam para lidar com essas situaões de forma a não ampliar os problemas nem prolongar desnecessariamente as crises.

Não duvido que a própria RBS tenha, em seus quadros, gente com essa formaão. Só que, neste caso específico, a parte visível da aão da empresa demonstra que alguns de seus gestores foram movidos por um ansioso amadorismo que os levou a cometer erro em cima de erro. Provavelmente alguém não preparado avaliou mal a gravidade da crise e achou que poderia lidar sozinho, sem pedir ajuda ou se aconselhar. E agora a empresa se encontra no meio de uma crise mais grave que a inicial.

TRASTE DESCARTÁVEL
O que o Diário Catarinense fez não foi demitir um mau profissional que exagerou na bebida e deu vexame ou descumpriu suas obrigaões profissionais. Eles demitiram um profissional que foi espancado pela polícia justamente porque tentava cumprir o seu dever. E o jornal aceitou, aparentemente sem qualquer tipo de questionamento, a primeira explicaão da polícia. Ao que tudo indica não levou em conta as circunstâncias e nem considerou que, mesmo que ele tivesse um pouco (ou muito) álcool no sangue, a aão policial foi ilegal e não podia ser ignorada.

E aí, no meio de um episódio obscuro de violência policial, de onde o Sarará emerge com sinais claros de espancamento, a empresa abandona seu empregado e os princípios que diz defender e agarra-se ao “diagnóstico” apresentado pelos autores da violência.

Além de não deixarem o Sarar fotografar, além de o terem torturado, os policiais ainda conseguiram demití-lo com enorme facilidade. A polícia atuou com grande desenvoltura e o jornal apequenou-se diante do arbítrio.

“VOU ALI NA KOMBI”
Em todas as redações onde trabalhei, em Porto Alegre, São Paulo, Brasília e aqui, sempre tinha um boteco, uma birosca, um botequim por perto, onde o pessoal se “abastecia”. Os diretores, é claro, freqüentam restaurantes mais chiques, bares refinados ou têm seu uisquezinho no armário da sala.

Na Gazeta Mercantil, no final do século passado e início deste, na sede de Santo Amaro, em São Paulo, tinha uma kombi que estacionava diante do jornal, do outro lado da rua, onde o pessoal mais aflito ia calibrar o fígado.

Lá de cima (o jornal ocupava um prédio de dez andares e a redaão do jornal era no terceiro), editores e diretores viam o movimento e sabiam quem eram os freqüentadores.

Ou seja: nenhum chefe de redaão pode se surpreender com o fato de jornalistas sob sua responsabilidade tomarem, vez por outra, uma cerveja ou alguma coisa mais forte. No jornalismo, como tantas outras profissões com grande carga de estresse, o álcool é um problema mais ou menos generalizado.

Faz parte da funão dos chefes, nas redaões (como nas demais organizaões) lidar com este e com outros problemas sem hipocrisia. E sem fingir que foi supreendido com a informação: “o quê? funcionário meu com álcool no sangue? que absurdo!”

E AGORA?
O problema de decisões precipitadas (e portanto pouco refletidas) como a demissão do Sarará é a mensagem de estímulo que ela passa para os maus policiais: “fica frio, sempre que um jornalista te incomodar, dá voz de prisão, enche ele de porrada, quebra o equipamento e depois é só dizer que ele te agrediu que o cara acaba no olho da rua e sem ter quem o defenda”.

O papel dos oficiais envolvidos no episódio e mesmo de outros agentes do governo precisa ser esclarecido não para que o Sarará recupere seu emprego, mas para que nós todos não fiquemos, cada vez mais, à mercê de gente truculenta que nada no mar azul da impunidade.

Esse sargento racista, que em vez de manter a ordem criou um tumulto à parte, deve estar se sentindo muito poderoso. E com razão. Fez o que fez e ainda conseguiu apoio e acobertamento. E a vítima virou réu.

Texto: Cesar Valente

PQP… Que me desculpe o pessoal da comunidade ligado ao Diário Catarinense, mas desta vez passaram dos limites! Atitude de extrema covardia!! Agora me diz, dá pra confiar num jornal que é capacho do Estado desta forma?! Vergonhoso!!

PQP... Que me desculpe o pessoal da comunidade ligado ao Diário Catarinense, mas desta vez passaram dos limites! Atitude de extrema covardia!! Agora me diz, dá pra confiar num jornal que é capacho do Estado desta forma?! Vergonhoso!!
Georges, o pessoal que trampa no DC está de cara com o que aconteceu, é realmente um absurdo sem tamanho, simplesmente jogaram o cara fora e o pior, com "justa causa" ele sai com uma mão na frente e outra atrás...

O sindicato dos fotógrafos de Floripa parece que fez nota repudiando a decisão do DC, vamos ver o que vai dar, na minha opinião os chefões do DC são um bando de FDPs!!! :boos2:

sinceramente… não sei nem o que dizer!
apesar de este ser apenas mais um dos muitos absurdos inimagináveis que já vi e já li.

pergunta Jack: qdo isto aconteceu? esta reportagem vc tirou do diarinho? se for e se vc tiver uma cópia, me empresta que eu quero digitalizar!

to super afim de mandar alguns emails pro dc!

sinceramente.... não sei nem o que dizer! apesar de este ser apenas mais um dos muitos absurdos inimagináveis que já vi e já li.

pergunta Jack: qdo isto aconteceu? esta reportagem vc tirou do diarinho? se for e se vc tiver uma cópia, me empresta que eu quero digitalizar!

to super afim de mandar alguns emails pro dc!


Aconteceu quinta passada e o cara foi demitido segunda de manhã.
O cara que escreveu é colunista do Diarinho, Cesar Valente e não sei se foi publicado, esse e-mail correu pela redação do DC…

Abraços,

Da Redação do DC!

A matéria publicada na semana passada pelo Diário Catarinense, que informa que o teste de bafômetro realizado pelo repórter-fotográfico Cláudio Souza, demitido do jornal, comprovou que ele estava embriagado, foi positiva do ponto de vista jornalístico, de acordo com o diretor-executivo Marcos Barboza, apesar de o texto omitir as agressões que o fotógrafo diz ter sofrido. A demissão do profissional, conhecido como Sarará, vem sendo condenada pelo Sindicato dos Jornalistas de SC, pela Federação Nacional de Jornalistas e por coleguinhas de todo o País.

As entidades afirmam que a demissão foi “injusta e arbitrária” e repudiam o fato de o repórter ter sido execrado nas páginas do jornal, que faz parte do grupo onde trabalhou por 18 anos. Para muitos, a questão principal está no desrespeito de uma empresa do grupo RBS, que pertence a Nelson Sirotsky, presidente da Associação Nacional de Jornalistas, que no ano passado criou a Rede de Liberdade de Imprensa, cujo objetivo é defender e condenar atos arbitrários contra o trabalho do jornalista.

Cláudio Silva registrava uma manifestação contra mudanças na tarifa no transporte público de Florianópolis quando entrou em conflito com um policial. “Ele me ofendeu e eu respondi. Fui preso por desacato à autoridade”, conta o repórter, que afirma ter sido agredido no rosto. Ao chegar à delegacia, Silva diz que foi obrigado a fazer duas vezes o teste do bafômetro - ele bebera uma long neck a caminho da manifestação. O fotógrafo só foi liberado depois que o advogado
do Diário Catarinense chegou à delegacia.

Depois de entregar o material que registrou na editoria de Fotografia, a direção do Diário o chamou para saber o que havia acontecido. “Eu estava nervoso e disse que havia bebido três garrafas pequenas de cerveja, quando na verdade foi uma. Deixei a sala, peguei meu equipamento e fui para casa tentar relaxar depois
da confusão. Á noite, me ligaram da redação e disseram que a minha prisão seria noticiada no jornal. No dia seguinte, fui demitido por justa causa. Não assinei os documentos”, conta.

A detenção foi noticiada, mas as agressões que Silva afirma ter sofrido, omitidas. “Ficou constatado que, tecnicamente, o fotógrafo estava embriagado”, diz o texto do Diário Catarinense.

Por que omitir as informações passadas pelo seu próprio fotógrafo e registrar o resultado do teste de bafômetro? Quem responde a esta pergunta é o diretor-executivo do DC. “Decidimos informar na matéria a questão do teste porque o fato era comprovadamente relevante para o leitor entender o contexto da prisão do Cláudio. Nossa política é para todos, independente de a pessoa envolvida ser um funcionário nosso ou não. Pelo que sei, ele só fez o exame de corpo de delito no dia seguinte”.

Questionado se não seria o caso de então fazer uma suíte da matéria, para saber o resultado do exame, Barboza respondeu: “Não achamos o caso tão relevante para “suitar”. Acho que a matéria que publicamos foi positiva do ponto de vista jornalístico”.

O diretor não quis se pronunciar sobre a demissão do fotógrafo. “Temos políticas claras internas e a demissão é uma questão administrativa. Por uma questão de respeito a ele, não vamos falar sobre isso”. “Não sou alcoólatra, mas eles me julgaram como tal. Eu me arrependo de ter bebido, mas não esperava ser discriminado dessa maneira”, defende-se Silva.

O SJSC vem prestando toda a assistência jurídica ao repórter-fotográfico. O sindicato e a Fenaj lançaram notas e pediram apoio a “todas as pessoas que defendem um jornalismo responsável e ético e relações de trabalho justas e democráticas” para que enviem uma mensagem de protesto contra a demissão por justa causa à direção do Diário.

O presidente da entidade, Rubens Lunge, lembra que, apesar de ser citado na matéria do jornal, o repórter-fotográfico não teve chances de se defender. “Não deram oportunidade para ele falar”. Para o sindicalista, o Diário deveria ter defendido o profissional agredido em vez de “justificar a demissão com uma alegação dessas”.

A assessoria da Secretaria de Segurança Pública do Estado informou que o termo do caso foi circunstanciado, que é o procedimento policial normal para crimes de menor gravidade. “É a versão do policial contra a versão do Cláudio. O caso vai para o juizado de pequenas causas”, disse o departamento de imprensa do órgão.