O lixo fotográfico digital

Celulares que permitem fotos de tudo e qq coisa em qualquer inimaginável hora e lugar.
Google Fotos, Instagram & Cia facilitando automatizando o armazenamento e visualização das imagens.
Geração selfie e milhões de pessoas se comunicando, viciadas e dependentes das imagens “pessoais”.
Mas ao mesmo tempo, e por falta de tempo e de interesse pra tanta coisa, fica cada vez mais difícil de rever de rememorar…

Daqui e daqui há 20 anos???
Qual a utilidade de tanta informação digital, o que vai se fazer com tantas mega-tera-toneladas de imagens digitais???
Haverá uma mudança no comportamento das pessoas em relação à fotografia???
Será que as próximas gerações um dia vão enjoar???

Lindsay, duvido que isso mude.

Tenho um filho de 17 anos, que a primeira vez que usou um celular para brincar ele já estava com mais de 10 anos. Tenho um filho de 8 que começou a brincar com um tablet aos 4 e tenho também um filha de 5 anos, que já tem um celular (sem linha, apenas para jogar e tirar fotografias).

O que vejo é que o fácil acesso a equipamentos de alta conectividade e que possibilitam fotografar, vai fazer com que cada vez mais haja fotografia e vídeos - quando comecei clicar amadoramente, só consegui comprar uma câmera 3 anos depois, porque meus pais e avós me ajudaram. Hoje, uma criança ganha uma máquina fotográfica só pelo fato de um parente trocar de câmera (isso sem contar celular).

isso também ocorre com o filme, pense a quanto tempo seus álbuns de recordações fotográficas não são folheados?

Infelizmente, a facilidade de se fotografar banalizou a fotografia.

E não tô falando como viuvinha do filme, ou profissional que “se sente ameaçado”, etc.

Mas banalizou. Simples assim.

Quando eu era moleque, a gente ia viajar, era um rolo de filme pra dez dias na praia, kkkkkkkkk

Hoje, antes de chegar na segunda praça de pedágio, a molecada e as molieres já tiraram umas 50 fotos, tudo besta, sem sentido, repetida…

A pessoa vai num casamento, num show, sei lá, e em vez de admirar a noiva, ou curtir o som, fica com essas porcarias de celulares pra cima. E não falo como fotógrafo que se incomoda com isso.

Falo como ser humano. As pessoas estão perdendo a capacidade de memória, por causa disso. Antigamente, o cara subia uma pedra no alto de um morro, sentava, admirava a paisagem, e ao voltar, falava pros amigos: “É fantástico! Dá pra ver toda a cidade de lá, vocês precisam ir!”
Hoje, outro cara sobe no mesmo morro, faz uma penca de selfie mal feita, foto tosca e etc. Umas 40. Não para pra admirar a beleza nem um segundo. Aí volta, e diz: “Lá é lindo, vou mostrar!” E pega o celular, fica aquela rodinha de mané olhando pra baixo, o celular na mão do sujeito, passando zilhão de foto até chegar na dita paisagem. So´ selfie…
Ah, comigo não rola isso não.

Essa foto, não sei onde é, nem o que eles estavam olhando. Mas uma certeza eu tenho: Só a senhorinha curtiu de verdade esse momento. O resto, só vão lembrar do que houve se tiver curtida no Facebook…

Minha ex mulher é dessas que tirava foto de tudo. Até o mini-mike se aborrecia, aheuaheuaehaue.

Eu ensino a ele, viver, aproveitar, sentir, em vez de ficar clicando. Ele tem sua própria câmera. Mas não tem foto tosca sem motivo não, rsrsrs… Quando ele está comigo, foto, apenas de coisas realmente bonitas ou situações especiais.
Não que ele tenha que ser um ermitão que não faz foto. Mas ter noção que HD custa dinheiro há momentos que merecer ser eternizados na lente, e momentos que merecem toda nossa alma.

Sei lá se estou certo. Mas é o que penso.

Me lembrei uma reportagem do Metro que apagou no meio do túnel…parecia que o pessoal estava mais preocupado em gravar do que sair de lá…

Acaba com armazenamento gratuito que a quantidade de lixo diminui… :smiley:

Esse é o ponto. Grandes empresas usam absolutamente tudo pra vender. Li em algum lugar que o Google lia (naquela época, hoje deve ser mais) cerca de 17 informações diferentes sobre você ao fazer uma simples procura. Isso tudo é relacionado a como o Google te conhece, e faz a força do Google. Armazenamento gratuito é chamariz pra gente continuar fornecendo dados de graça. Pra eles, quanto mais, melhor.

Eu tava olhando um dia desses uma mapa do Texas pelo Google Maps. Tem a vista satélite que, por ser satélite, só deveria mostrar telhados de casas. Daí eles vieram com imagens 3d, que mostram coisas que não são observáveis pelo satélite… Não sei como eles conseguem aquilo, mas só tá lá porque alguém colocou, possivelmente de livre e espontânea vontade…

Mike, minha mãe tinha uma Yashica MAT 124 quando eu tinha 8 anos - eu só de ver a máquina já ficava admirado. Como ela percebeu que eu tinha interesse por fotografia, ela me deu uma Kodak Instamatic 155X usada - no dia que eu ganhei, até dormi com ela.

Hoje, meu filho mais velho (17 anos) disse que trocava todas as minhas câmeras facilmente num iPhone 7, que além de fotografar, daria para publicar instantaneamente as fotografias.

Também não estou dando uma de viuvinha de filme não, mas que a coisa tá banal pra caramba, isso tá e de sobra…

Por que a forma como as pessoas usam a tecnologia/fotografia incomoda vocês?

1 - Os convidados estragam as entradas das noivas nos casamentos que eu fotografo;
2 - Os convidados me atrapalham quando tô fotografando em estudio, querendo fazer “só umazinha”;
3 - As pessoas andam na rua olhando pra baixo e trombam em mim;
4 - Quero ver um show, apresentação de qualquer coisa, e tem um monte de FDP com essas porcarias pra cima tampando a visão;
5 - A gente vai conversar, numa roda de boteco, e todo mundo fica olhando pra essas porcarias, e fazendo foto sem graça, em vez de conversar, dar risada e xavecar;
6 - As pessoas estão emburrecendo, não conseguem mais falar sobre determinado acontecimento passado sem a maldita frase:
“Eu tirei umas fotos aqui, peraí que te mostro!”

7 - A pessoa vai comer/dormir/peidar e posta no feicebuque. Aí, posts relativamente legais que eu poderia ver são empurrados pra baixo na timeline, rsrsrs

Deve ter mais, agora de cabeça não lembro.

kkkkkkk, boa, muito bom!!!

Bom não é que me incomoda, mas como fotógrafo e pensador, fico imaginando sobre as questões que estão envolvidas nesta relação da fotografia com a efemeridade das coisas, com a existência.

É bem interessante tentar entender como a fotografia participa desta mudança de comportamento, uma evolução (ou revolução) do “ser”, do relacionamento humano, um processo que envolve a memória, a vontade de existir, de guardar, de mostrar, de sonhar, de viver, de parecer ou aparecer, através das imagens.

Antigamente se dizia “penso, logo existo”, e hoje poderíamos dizer “fotografo, logo existo”.

Veja que mesmo aquela pessoa comum está pensando e se expressando através das fotografias, são fotografias que perguntam, que respondem, que provocam, a comunicação através das imagens. Mas um volume tão grande de informações vai acabar aonde??? Será que o sentido de tudo isso um dia vai se perder???

Continuo pensando aqui…

8 - Os convidados atrapalham na hora das fotos tradicionais dos pais e padrinhos, ficam do nosso lado, e cada uma sai olhando em uma direção na foto.

Todas essas questões sempre existiram; a omnipresença da fotografia digital só está amplificando as supostas “preocupações”.

Garanto que lá em 1900, quando a Kodak lançou a Brownie, um monte de fotógrafo deve ter reclamado que a fotografia seria diminuída em importância com toda essa popularização.

E o mesmo deve ter acontecido em 1950 com a popularização das Polaroids.

O que eu acho curioso é que muita dessas preocupações são com A Fotografia: atividade “intelectual” com letra maiúscula, e não a fotografia de meros mortais.

O problema é que a maioria das pessoas alegando serem Fotógrafos fazendo A Fotografia com letra maíuscula, estão simplesmente fazendo fotografia igual a todo mundo no Facebook e Instagram, mas com câmeras fodas e com uma camada de pseudointelectualidade por cima. Eles estão tirando fotos de cachorro, de crianças, de flores, de mendigos na rua, tudo com bokeh monstro ou com preto e branco pseudointelectual, e acham que estão fazendo A Fotografia.

Aí esses pseudo-Fotógrafos olham com muito desdém pro povão tirando foto da sobremesa e postando no Instagram como se eles fossem superiores ao resto da casta inferior produzindo lixo.

Tipo, olha as fotos que esses pseudo-Fotógrafos fazem: aquele P&B clichê de uma criança, feita com uma Canon 5D MKIII e aquela lente Sigma Art foda que gera bokeh monstruoso. Parece que eles estão fazendo fotos importantes e cheias de conteúdo ou eles estão fazendo fotos igual ao povão do Facebook, mas com um monte de porcaria por cima pra dar a impressão de intelectualidade? Eu acredito mais na segunda possiblidade.

Porque não se preocupar com os montes de pseudofotógrafos, achando que estão fazendo fotografia erudita, poluindo a internet? Entre no Instagram, Flickr, fóruns de discussão e até no You Tube e você vai eles aos montes. Eles estão produzindo muito lixo também. Essa galera pseudo-artística é tão ruim pra Fotografia quanto o povão com smartphone.

Ponto interessante. Temos a tendência de achar que são os outros que produzem lixo, que agem mal, que são desonestos, e por aí vai…

E por usarmos um equipamento mais sofisticado e sabermos fotografar no manual, nos sentimos meio “donos” da fotografia e achamos que precisamos defendê-la da massa que a estaria destruindo. Mas no fundo — tirando raríssimas exceções em fóruns e flickrs — também só fazemos banalidades, só que envernizadas por uma técnica fotográfica um pouquinho mais aprimorada.

Acho que é a nossa velha necessidade de se sentir especiais, diferentes e até melhores do que os outros. Quando conseguimos algum diferencial que acreditamos que nos coloca num patamar diferenciado, nos sentimos ameaçados por aquilo que pode nos tirar dessa posição.

Com qual celular você fotografa profissionalmente? Ninguém está querendo ser melhor do que ninguém, mas dizer que as pessoas não atrapalham quando estamos trabalhando, acho que é o mínimo que você poderia perceber.

Creio que o tópico tem como viés o fato de estar se produzindo muito material, deixando a fotografia como um produto em série, fazendo com que a percepção do que é uma boa ou má fotografia esteja se perdendo ao longo do tempo.

Não sou melhor do que ninguém, em nenhum sentido, mas se tive a coragem de gastar a quantidade de grana gastei com corpos e lentes (sem falar em acessórios) e acima de tudo, enfrentar uma sociedade que te esmaga se você não escolher uma profissão tradicional (direito, medicina, engenharia e ciências), penso que somos “diferenciados” pela coragem que tivemos de escolher viver de fotografia e, por este motivo, acho que o Mike está completamente com a razão ao dizer que atrapalham.

Se você fosse um médico e estive conduzindo de maca um paciente a uma cirurgia e as pessoas ficassem na sua frente, impedido que a maca fosse rapidamente ao local necessário, elas estariam atrapalhando do mesmo modo que um convidado fica com o celular no meio do corredor tirando fotos da noiva - as profissões são diferentes, mas a ação é a mesma.

Estava me referindo à questão da produção fotográfica, não dos convidados que atrapalham…

Uma represa que não para de encher um dia transborda.

Acho que essa banalização e supersaturação de imagens pode destacar ainda mais o que é bom, o que tem diferencial, pois pra mim uma boa fotografia continua sendo boa, independente de estar havendo essa superprodução, independente de ela ter sido feita com um celular, uma médio formato ou uma pinhole.

Isso é o pior.

A produção do lixo fotográfico é muito relativa… O que é imprestável pra mim pode não ser pra um de vocês.
Imagina isso num confronto de milhões de cabeças…
Agora a grande diferença dos fotógrafos e dos fotografadores :doh: é essa capacidade de filtragem… Ninguém que venda fotografia vai guardar uma foto cortada, torta, feia… A gente descarta (se descarta é por que produziu).
E acho importante que entendamos que a MAIS VALIOSA commodity da era virtual é a informação. Seja ela uma mera relação de gostos e interesses pessoais, seja ela uma foto feita com celular fuleiro…
Quantas reportagens em noticiários de grande alcance já usaram imagens amadoras, simplesmente por que o sujeito tava no lugar certo e na hora certa, com um aparelho qualquer que “faz filme”?
Então gente… Isso não vai ter fim, não… Quando a represa estiver por transbordar, Rapha, eles vão subir os muros. Simples assim. É mais negócio pra eles aumentar o armazenamento do que perder informação…