Tapa na cara

ACORDA BRASIL!!!


A bolsa generosa da PM

Carla Rocha e Sérgio Ramalho
Rio, 18 de junho de 2006

Um documento referente às licitações feitas pela Polícia Militar no ano passado revela que a corporação planejou gastar R$ 1,3 milhão na compra de capim verde, ração e forragem para cavalos. O valor é três vezes maior que a quantia empregada na aquisição de pólvora, espoletas e projéteis (R$ 401.676,48). O relatório da Diretoria Geral de Apoio Logístico (DGAL) ao qual O GLOBO teve acesso mostra, ainda, que a PM contratou R$ 251.769,00 em serviços de bufê, bandas, orquestras, confecção de convites, aluguel de tendas, toldos e ornamentação com flores. Uma festa, com direito a reforma de espadins por R$ 24 mil.

Com 184 cavalos abrigados em estábulos no Regimento de Polícia Montada (RPMont), em Campo Grande, e no Esquadrão Escola de Cavalaria, em Sulacap, a PM licitou R$ 657 mil para a compra de capim verde da empresa A Capineira e R$ 737,4 mil para aquisição de ração e forragem da Agroceres. O que daria um gasto diário de aproximadamente R$ 20 com a alimentação de cada animal. A PM desembolsa diariamente R$ 1,72 em despesa com a refeição de um praça.

— É um absurdo que comprova o desrespeito do comando com a tropa. Há anos defendemos a melhora de qualidade da alimentação nos batalhões, com o aumento do valor por refeição. Em Minas Gerais, por exemplo, esse gasto gira em torno de R$ 5 — diz Miguel Cordeiro, presidente do Sindicato dos Reformados e Pensionistas da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros.

A PM ainda comprou, por meio de dois processos, um com dispensa de licitação e outro na forma de pregão, R$ 54,1 mil em cravos e ferraduras.

PM não vê distorções em gasto com cavalos

Enquanto a despesa com o tratamento dos cavalos figura entre as mais elevadas no relatório, perdendo apenas para gastos com combustível, água, luz e telefone, o investimento em pólvora, espoleta e projéteis da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) soma R$ 401.676,48 em duas compras. Para o major Oderlei Santos, relações-públicas da PM, os números não surpreendem porque a corporação tem utilizado munição recarregada, o que reduz os custos. O trabalho, explicou, é feito no núcleo de recarga de munição no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (Cefap), em Sulacap.

Oderlei afirma que a PM não enfrenta, no momento, qualquer problema de falta de munição. De acordo com o major, o material recarregado é usado prioritariamente nos treinamentos, que consomem mais munição do que a atividade de policiamento ostensivo nas ruas. Com relação aos gastos com alimentação dos animais, o major acredita que os números estejam de acordo com a quantidade de cavalos usados pela PM.

Segundo o Tribunal de Contas do Estado (TCE), a firma A Capineira Indústria e Comércio de Forragens forneceu capim verde à PM em 1994 e, recentemente, teve dois contratos com a corporação em 2004, totalizando R$ 371,3 mil. Um ano depois, o valor gasto com capim verde teve aumento de 58%, sem que o número de animais tenha acompanhado o crescimento. Num dos contratos avaliados, o TCE sugere a realização de diligência. Repórteres do GLOBO foram ao endereço da Capineira que consta do cadastro da Receita Federal. Na Estrada Canal do Guandu, em Santa Cruz, onde deveria funcionar a sede da firma, há apenas pequenas propriedades rurais e favelas.

Outros itens do relatório da DGAL também chamam a atenção. Entre eles, a contratação da empresa Ibéria Espadas para o serviço de reforma de espadins a um custo de R$ 24 mil. O major Oderlei explica que os espadins são peças de metal com mais de 60 anos, que eventualmente precisam passar por reparos. As peças são entregues aos policiais que ingressam na Academia de Polícia Militar, permanecendo com eles durante os três anos de curso de formação de oficiais.

Há ainda outras curiosidades no relatório, como a compra com dispensa de licitação de uma tuba por R$ 7.150. O valor corresponde ao preço do modelo mais caro desse instrumento. Além da aquisição, também sem licitação, de um frigobar por R$ 2.676 e a compra, em três contratos, de medalhas, pastas e insígnias num total de R$ 19.755,55.

Reparo de 3 aparelhos de ar por R$ 19,8 mil

Um dos contratos presentes no relatório cita o gasto de R$ 19.800 para consertar três aparelhos de ar-condicionado, na empresa Novo Clima. A mesma firma é contratada em outro pregão para fornecer 15 aparelhos pelo valor de R$ 19.472,64.

O gasto com conserto de aparelhos de ar-condicionado totaliza R$ 63.521,00 em três processos. O mais caro, no valor de R$ 35.892, não cita a quantidade de aparelhos que serão reparados pela Novo Clima.

A documentação mostra que a PM não investiu apenas na manutenção de aparelhos de ar-condicionado. Em dois processos de pregão, a corporação fixou gastos na ordem de R$ 154.424 para aquisição de aparelhos. Os processos de licitação também não mencionam o número de aparelhos a serem comprados na empresa G.C. Santos.

A queda de temperatura proporcionada pela compra e pela manutenção de aparelhos de ar-condicionado talvez explique o gasto de R$ 39.600 na compra de cobertores de lã da Emprefour.